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15 julho 2010

Igreja estabelece normas mais rígidas contra abusos sexuais

Leonardo Meira
Da Redação, com Bollettino della Sala Stampa della Santa Sede (tradução de CN Notícias)

O Vaticano acaba de estabelecer normas mais rígidas para coibir os casos de abusos sexuais por parte dos membros do clero, bem como outros delitos considerados gravíssimos pela autoridade eclesiástica. 

É que a Congregação para a Doutrina da Fé publicou na manhã desta quinta-feira, 15, uma série de modificações introduzidas no Motu Proprio "Sacramentorum Sanctitatis tutela", publicado em 2001 pelo Papa João Paulo II, e que atribuía à mesma Congregação "a competência para tratar e julgar no âmbito do ordenamento canônico uma série de delitos particularmente graves, cuja competência anteriormente correspondia também a outros dicastérios ou não estava totalmente clara", conforme indica o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, padre Federico Lombardi. 

"Os delitos gravíssimos aos que se referia essa normativa dizem respeito a realidades chave para a vida da Igreja, ou seja, aos sacramentos da Eucaristia e da Penitência, mas também aos abusos sexuais cometidos por um clérigo com um menor de 18 anos", continua o sacerdote na nota "O significado da publicação das novas 'Normas sobre os delitos mais graves'". 

As alterações foram divulgadas em três documentos: uma carta da Congregação, assinada pelo prefeito, Cardeal William Joseph Levada, e pelo Secretário, Dom Luis Ladaria, enviada aos bispos; uma nota, também da Congregação, sobre as modificações introduzidas; e, por fim, uma introdução histórica acerca das normas do Motu Proprio "Sacramentorum sanctitatis tutela".

"A publicação destas normas supõe uma grande contribuição para o esclarecimento e a certeza do direito em um campo no qual a Igreja, nestes momentos, está muito determinada a agir com rigor e transparência, para responder plenamente às justas expectativas de tutela da coerência moral e da santidade evangélica que os fiéis e a opinião pública nutrem com relação a ela, e que o Santo Padre reafirmou constantemente", ressalta o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé.

Padre Lombardi também salienta que os frutos dos ensinamentos e reflexões amadurecidas ao longo do doloroso caso da "crise" devida aos abusos sexuais por parte de membros do clero "serão um passo crucial no caminho da Igreja, que deverá traduzi-los em práticas permanentes e ser sempre consciente delas".
As novas normas também contemplam delitos de outra natureza. Foram incluídos: os delitos contra a fé (heresia, apostasia e cisma), para os quais são normalmente competentes os ordinários (bispos locais), mas a Congregação é competente em caso de apelação; a divulgação e gravação - realizadas maliciosamente - das confissões sacramentais, sobre as quais já se havia emitido um decreto de condenação em 1988; a ordenação de mulheres, sobre a qual também existia um decreto de 2007.

As modificações

De acordo com padre Lombardi, a integração e atualização das "Normae de gravioribus delictis" ("Normas sobre os delitos mais graves"), que acompanhavam o Motu proprio de 2001, visa "agilizar ou simplificar os procedimentos, tornando-os mais eficazes, bem como levar em conta novas questões".
As principais mudanças são:
 - os procedimentos serão mais rápidos, com a possibilidade de não seguir "o caminho de processo judicial", mas proceder "por decreto extrajudicial", bem como apresentar ao Santo Padre, em circunstâncias especiais, os casos mais graves, tendo em vista a demissão do estado clerical;
 - permissão para que sejam membros do tribunal responsável por julgar esse tipo de caso, tanto na qualidade de advogados ou procuradores, não somente os sacerdotes, mas também leigos. Para desenvolver essas funções, já não é estritamente necessário o doutorado em Direito Canônico - a competência requerida pode-se demonstrar de outra forma, por exemplo, com um título de licenciatura;
 - a prescrição do delito passa de dez para vinte anos, deixando aberta a possibilidade de revogação desse item após superado o período;
 - equiparação aos menores das pessoas com uso limitado da razão;
 - introdução de uma nova questão, a pedo-pornografia - definida como "a aquisição, posse e divulgação" por parte de um membro do clero "de qualquer forma e por qualquer meio, de imagens pornográficas que tenham como objeto menores de 14 anos";

 - continuação da normativa da confidencialidade dos processos, para tutelar a dignidade de todas as pessoas envolvidas;
 - colaboração com as autoridades civis não é mencionada, uma vez que as normas dizem respeito ao regulamento penal canônico, "em si completo e totalmente independente do dos Estados", ressalta padre Lombardi.

A esse respeito, vale lembrar a seção "Procedimentos Preliminares" do "Guia para a compreensão dos procedimentos básicos da Congregação para a Doutrina da Fé com relação às acusações de abusos sexuais", que indica: "Deve sempre seguir-se o direito civil em matéria de informação dos delitos às autoridades competentes". O diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé explica: "Isso significa que na práxis proposta pela Congregação para a Doutrina da Fé é necessário se adequar desde o primeiro momento às disposições de lei vigentes nos diversos países e não de modo desvinculado do procedimento canônico ou posteriormente".

Com relação à publicação, meses atrás, do "Guia para a compreensão dos procedimentos básicos da Congregação para a Doutrina da Fé com relação às acusações de abusos sexuais", o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé afirma que a publicação das novas Normas é diferente, "já que apresenta um texto jurídico oficial atualizado, válido para toda a Igreja".


15 maio 2010

CNBB se pronuncia sobre abusos sexuais na Igreja, Ficha Limpa e Congresso Eucarístico

Na coletiva de encerramento da 48ª Assembleia Geral da CNBB, a Presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil fez um pronunciamento oficial sobre abusos sexuais na Igreja. Antes, presidente da entidade, dom Geraldo Lyrio Rocha, destacou que a Assembleia foi caracterizada por assuntos que dizem “respeito à vida interna da Igreja”, mas também por temas ligados diretamente à sociedade brasileira, como exemplo a questão do “trabalho escravo” e a “questão agrária” no Brasil.

Sobre os abusos sexuais na Igreja, dom Geraldo disse que a CNBB vai criar uma comissão para elaborar um vademecum (manual de fundamentação e orientação), cujo objetivo é ser uma política oficial de ação da Igreja no Brasil sobre acasos de abusos sexuais praticados por seus membros. O manual deverá indicar os a medidas a serem adotada em casos de abusos sexuais praticados por membros da Igreja.

48agdomgeraldocoletiva“Nós queremos mostrar que, quando se trata da questão do pecado, a atitude da Igreja deve ser de perdão e de misericórdia, mas diante do crime praticado é preciso que as penalidades sejam aplicadas. Sejam as canônicas, jurídicas, como as penalidades civis. A cartilha elaborada pela CNBB será uma espécie de roteiro que auxiliará os bispos a procederem quando houver um caso dessa natureza em sua diocese”, disse. “As patologias, por sua vez, devem passar por um tratamento”, completou dom Geraldo.

O presidente da CNBB também garantiu que os candidatos ao seminário deverão passar por um rigoroso critério de seleção antes de ingressar na vida religiosa. “Os casos que estão sendo analisados nos levam a refletir sobre a questão das exigências na admissão dos candidatos ao sacerdócio e na vigilância ao período formativo”. Ele também disse que a Igreja analisará cada candidato antes de conceder a ordenação sacerdotal. “Se o candidato apresentar qualquer desvio de conduta, ele será imediatamente suspenso da ordenação sacerdotal”.

Assistência às vítimas

De acordo com dom Geraldo, a partir da cartilha, a Igreja estará preparada também para garantir assistência às vítimas. “As vítimas terão assistência espiritual e psicológica. Entendemos que os abusos sexuais trazem complicações e consequências gravíssimas”.

Ainda segundo o presidente da CNBB, a questão (abusos sexuais na Igreja) foi colocada em Assembleia para que todos os bispos tivessem consciência das novas posições da Igreja com relação ao assunto. “A Igreja sempre se preocupou com esse problema, mas agora, com a cartilha que vamos elaborar, queremos ter mais clareza e precisão quanto aos passos concretos que devem ser dados em relação às vítimas e suas famílias”.

A Comissão a ser criada pela CNBB contará com especialistas de várias áreas do conhecimento, entre elas, do direito canônico, do direito civil e psicólogos. A meta da Conferência é elaborar o texto no prazo mais curto possível. Alguns elementos para a formação da equipe e da cartilha, segundo dom Geraldo, já no pronunciamento da Presidência entregue á imprensa

Ficha Limpa

“Parece-me que quanto ao Projeto Ficha Limpa a CNBB vai permanecer vigilante e procurar sempre trazer essa reflexão aos meios que ela alcança, mas eu diria que a agora nós teremos um papel muito importante, tanto da mídia, quanto da sociedade civil, que precisa se articular. Esperamos que o Projeto Ficha Limpa, no Senado, tenha o mesmo trâmite que teve na Câmara, e que não haja modificações, para que possamos vê-lo em atuação ainda nestas eleições”, disse dom Geraldo a respeito do Projeto Ficha Limpa.

48agdomdimascoletiva“Acho ainda que o eleitor é quem precisa ficar vigilante, pois um senador que coloque dificuldades na aprovação deste projeto, se ele se candidata novamente, será que ele vai ter o apoio do eleitor? Alguém que se coloca contra o Projeto Ficha Limpa, será que não está confessando que tem a Ficha Suja?”, indagou o presidente da CNBB.

Para dom Geraldo, esta é uma questão que coloca em reflexão os próprios senadores. “Para mim, quem coloca empecilhos para a aprovação do Projeto Ficha Limpa é porque tem a Ficha Suja!” destacou.

O secretário geral, dom Dimas Lara Barbosa, mostrou otimismo quanto a aprovação do projeto no Senado. “Houve gente que dizia que era mais fácil ‘boi voar que o projeto ser aprovado na Câmara’. Após a derrubada dos 11 destaques e a aprovação pela Câmara, o comentário é que já estão vendo ‘boi voando’”, disse dom Dimas, arrancando risos dos jornalistas.

Congresso Eucarístico

Dom Geraldo Lyrio Rocha falou também sobre o 16º Congresso Eucarístico Nacional, que começa na noite de hoje, 13, e segue até o dia 16, em Brasília (DF).

“A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) está em espírito de grande expectativa e muita alegria. Vão chegando às notícias das delegações, das caravanas que chegam a Brasília de tantas partes do nosso país, e cada bispo que recebe a notícia da chegada das caravanas de sua região, se rejubilam com essa boa notícia. Temos certeza que com a organização, o ânimo da cidade pela manifestação de empenho extraordinário da própria arquidiocese de Brasília, tenho certeza que o Congresso Eucarístico Nacional será um grande momento, não só para o Distrito Federal, mas para todo o Brasil”.

Fonte: SSVP
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